Origem da decisão
Maio de 2024 · O novo aeroporto
A escolha de Alter do Chão não é um acto isolado. Resulta de uma cadeia decisória iniciada com a aprovação, em Maio de 2024, do novo aeroporto de Lisboa (Luís de Camões) no actual Campo de Tiro de Alcochete. A decisão de construir o aeroporto naquele local foi tomada pelo Governo do Primeiro-Ministro Luís Montenegro através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 66/2024.
Julho de 2025 · A preparação administrativa
Esta opção tornou inevitável a desocupação do espaço militar de Alcochete. A 17 de Julho de 2025, o Governo aprovou a Resolução do Conselho de Ministros n.º 111/2025, que determinou à Força Aérea a preparação dos estudos para a nova localização e atribuiu à Direcção-Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional (DGAPDN) competência para os actos administrativos subsequentes, com referência expressa a "eventuais expropriações". A resolução fixou o final de 2025 (31 de Dezembro de 2025) como prazo para a apresentação dos estudos prévios da Força Aérea.
Março de 2026 · O anúncio antes do estudo
Antes da conclusão pública desses estudos e antes de qualquer consulta formal, o Ministro da Defesa Nacional Nuno Melo convocou uma conferência de imprensa em Lisboa, a 11 de Março de 2026, e anunciou Alter do Chão como destino certo. O comunicado oficial foi publicado em portugal.gov.pt no dia seguinte, às 10h26. O acto político precedeu a instrução técnica.
Confissão pública
"Os estudos de impacto e outros (...) são os que decorrem da lei e que serão feitos."
Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional, conferência de imprensa, Lisboa, 11 de Março de 2026. Comunicado publicado em portugal.gov.pt a 12 de Março, 10h26. O membro do Governo competente reconhece, em discurso oficial, que os estudos legalmente obrigatórios ainda não tinham sido feitos no momento em que o destino do projecto foi tornado público.
O que está em causa
Escala e propriedade
O projecto prevê ocupar cerca de sete mil e quinhentos hectares, que se estendem por vários concelhos do Alto Alentejo (Alter do Chão, Monforte, Crato e Fronteira). A quase totalidade desta área corresponde a propriedade agrícola privada, abrangendo mais de cinquenta explorações familiares ou societárias.
A quase totalidade do perímetro é propriedade privada. O Estado dispõe, na região, de terreno público próprio e de baldios comunitários que não recaem sobre famílias, mas o perímetro anunciado recai sobre explorações agrícolas privadas. Quando o projecto avançar, as explorações privadas ficarão expostas a procedimento expropriativo nos termos do Código das Expropriações.
Cinco eixos comprometidos em simultâneo
Em causa estão, simultaneamente, cinco eixos de valor que o projecto compromete em conjunto:
- Património natural: no raio de impacto da Rede Natura 2000, com a Zona Especial de Conservação de Cabeção (PTCON0029) a cerca de treze quilómetros e a Zona de Protecção Especial de Monforte (PTZPE0051) a cerca de cinco quilómetros e meio, além da Área Importante para as Aves (IBA) de Alter do Chão (PT017) na envolvente. Habitats de montado de sobro e azinho protegidos a nível europeu. Espécies estepárias em estado de conservação desfavorável (sisão em perigo crítico, abetarda, peneireiro-das-torres, tartaranhão-caçador).
- Património cultural: a Coudelaria de Alter, fundada em 1748, fica no concelho de Alter do Chão. A Arte Equestre Portuguesa, com a Coudelaria como elemento central, foi inscrita pela UNESCO a 3 de Dezembro de 2024 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
- Economia agrícola: olivicultura, pastoreio extensivo, cerealicultura de sequeiro, montado, vinha em pequena escala e candidaturas comunitárias em curso ficam comprometidos pela ocupação militar e pelo procedimento expropriativo. O cadastro IFAP 2025 identifica 329 a 375 parcelas com PAC activa no perímetro previsto, e 58 a 81 agricultores distintos com beneficiário FEAGA confirmado, com perda anual entre 2,7 e 3,3 milhões de euros em subsídios.
- Infraestrutura energética: o gasoduto Campo Maior–Leiria, principal ponto de entrada de gás natural em Portugal a 85 bar de pressão, atravessa 11,8 quilómetros dentro do polígono. O Despacho 806-C/2022 (RNTG, DGEG) impõe obrigação de contactar a REN, distância mínima de 75 metros e autorização prévia para qualquer trabalho na vizinhança. Sem registo público desse contacto.
- Procedimento legal: a inversão da ordem (decisão pública antes dos estudos legalmente obrigatórios) esvazia a Avaliação de Impacte Ambiental da sua função protectora e cria uma vulnerabilidade central a impugnação contenciosa, no quadro do RJAIA, na redacção dada pela Lei n.º 4/2025.
O caso em três tempos
A síntese institucional da posição da plataforma estrutura-se em três tempos articulados.
O que aconteceu
A 11 de Março de 2026, o Ministro da Defesa anunciou que o Campo de Tiro sai de Alcochete e vem para Alter do Chão. Anunciou sem estudos prévios, sem AIA, sem consulta pública, sem revelar o custo e sem dizer que um gasoduto de alta pressão atravessa a meio.
Porque é ilegítimo
O Governo admitiu não ter estudos. Aprovou, 28 dias antes, o decreto que protege a zona escolhida. Não consultou a REN, não consultou a população, não comparou alternativas. Configura violação de procedimento, de princípios constitucionais e do quadro europeu vinculativo.
Que alternativa existe
A Força Aérea tem Mértola e Serpa identificadas como melhor opção técnica desde 2007. A NATO oferece Bardenas Reales (Espanha) desde 1982, com 80% de capacidade disponível, a 5 a 20 milhões de euros por ano. Primeiro o estudo, depois a decisão.
Cartografia do projecto
A cartografia oficial detalhada do perímetro não está, à data, publicamente disponível. O Ministério da Defesa Nacional não publicou plantas, áreas exactas nem listas oficiais de prédios afectados. O material cartográfico que circula corresponde aos elementos reunidos pelos agricultores afectados, sobrepostos a cartografia de referência aberta. Pelo que se conhece, este é também o único material a que o próprio município teve acesso até à data. É indicativo. Não substitui cartografia oficial.
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Actores institucionais envolvidos
O processo cruza múltiplos níveis de decisão e administração. Para uma caracterização individual e detalhada de cada actor, com a respectiva posição declarada e fontes documentais, consultar a página de Actores.
- Governo (XXV Governo Constitucional): Primeiro-Ministro Luís Montenegro, Ministro da Defesa Nacional Nuno Melo, e Secretário de Estado Adjunto e da Política da Defesa Nacional Nuno Pinheiro Torres.
- Forças Armadas: CEMGFA General João Cartaxo Alves, CEMFA General Sérgio Costa Pereira, CEME General Eduardo Mendes Ferrão.
- DGAPDN: Direcção-Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional, com competência para os actos subsequentes, incluindo eventuais expropriações, nos termos da RCM n.º 111/2025.
- Câmara Municipal de Alter do Chão: presidida por Francisco Miranda, com posição inicial de apoio (11 de Março de 2026) e posterior recuo público (1 de Maio de 2026).
- Assembleia Municipal: órgão deliberativo que aprovou unanimemente o PDM em 2023 e que debateu o tema a 30 de Abril de 2026.
- Coudelaria de Alter: instituição pública sob tutela do Ministério da Agricultura, situada no concelho de Alter do Chão e cuja Arte Equestre é património UNESCO.
- Agência Portuguesa do Ambiente (APA): autoridade nacional competente para a futura Avaliação de Impacte Ambiental.
- Sociedade civil: SPEA, FAPAS, Quercus, BirdLife International, agricultores organizados em vias de constituição associativa, e a primeira subscritora da Petição Pública PT130367.
- Forças políticas com iniciativa parlamentar formal: Bloco de Esquerda (18 de Março), Partido Socialista (18 de Março e 25 de Abril), Partido Comunista Português (30 de Março e 2 de Abril), Chega (29 de Abril).
Onde estamos agora
Iniciativa parlamentar e mobilização cívica
O quadro de Junho de 2026 é o seguinte. A Petição Pública PT130367 ultrapassou as 2.300 assinaturas e cruzou o limiar legal de mil assinaturas que obriga à publicação no Diário da Assembleia da República e à audição dos peticionários em comissão. Quatro grupos parlamentares apresentaram iniciativas de fiscalização. O Presidente da Câmara reverteu publicamente a sua posição inicial e declarou aguardar os estudos.
Silêncios documentados
Os estudos prévios da Força Aérea ainda não foram publicados. A cartografia oficial do projecto não é pública. A Coudelaria de Alter, instituição central da Arte Equestre reconhecida pela UNESCO, não emitiu posição pública sobre o caso. A Agência Portuguesa do Ambiente não tem registo de procedimento aberto no portal participa.pt.
Prioridades imediatas
A plataforma "Não ao Campo de Tiro" trabalha em articulação com os agricultores organizados, com associações ambientalistas, com forças políticas e com a imprensa. As prioridades imediatas são: obtenção da cartografia oficial por requerimento formal; instrução técnica das exposições para a AIA quando esta abrir; mobilização cívica para reforçar o peso institucional do caso.